
Desde muito cedo, o som já exercia uma estranha fascinação em mim.

Comecei a tocar violão aos 11 anos. Um ano depois, ganhei minha primeira guitarra.
Naquela época, passava horas tocando, tentando reproduzir as músicas que ouvia e descobrindo as possibilidades do instrumento. Aos poucos, fui percebendo que não queria apenas aprender a tocar as músicas de outras pessoas. Queria também criar as minhas.
A guitarra se tornou uma parte importante da minha vida e, alguns anos depois, me levou a Boston.
BERKLEE
BOSTON — 1992

Cheguei à Berklee em 1992. Tinha apenas 17 anos e ainda não sabia exatamente qual direção seguir.
Sabia que queria fazer algo autoral, compor minhas próprias músicas, mas ainda não sabia se seriam temas instrumentais ou músicas cantadas.
Naquele momento, minha relação com a música era muito mais intuitiva. Eu passava horas tocando guitarra, experimentando ideias e tentando descobrir uma linguagem que fosse realmente minha.

Na Berklee, dirigi minha atenção especialmente para composição e arranjo. Estudei harmonia, percepção musical (ear training) e tinha aulas semanais de guitarra, meu instrumento principal.
O estudo de percepção musical foi fundamental para que eu começasse a transformar as ideias que tinha na cabeça em minhas primeiras composições autorais.
Com o tempo, fui percebendo que meu caminho seria como cantor e compositor, mas sem deixar de lado minhas influências como guitarrista. Queria que a guitarra e o violão continuassem tendo um papel significativo nos meus arranjos, sempre permeados por riffs, solos e passagens instrumentais.
Voltei ao Brasil decidido a seguir uma carreira como cantor e compositor autoral.

Comecei a buscar caminhos para realizar meu primeiro disco e acabei gravando um álbum inteiramente autoral, com arranjos e produção feitos por mim, no antigo estúdio da Cardan, em São Paulo.
Foi uma experiência importante, embora eu nunca tenha chegado a lançar esse trabalho. Ainda estava experimentando diferentes sonoridades e tentando encontrar uma direção mais definida para minhas composições.
Foi durante as gravações desse primeiro disco, no estúdio da Cardan, que conheci Luis Henrique Carneiro, um cantor e compositor extraordinário, com quem construí uma amizade que permanece até hoje.

Luis começou a fazer os arranjos vocais das minhas músicas e se tornou um parceiro de composição. Escrevemos juntos canções como Sete e Meia, Untitled Song e Pobre Coração.

Além da amizade e das músicas que fizemos, a voz de Luis se tornou uma parte importante da estética do meu som, através das texturas de seus arranjos de voz e de suas interpretações nos backing vocals, que davam suporte à minha voz.

Foi também ele quem me apresentou a outra pessoa fundamental na construção da minha identidade musical: o produtor Bruno Bona.

Bruno Bona teve um papel fundamental na definição da minha estética musical.
Produtor, arranjador e pianista de enorme talento e conhecimento musical, tem um gosto extremamente refinado e uma maneira muito particular de combinar sound design com arranjos contemporâneos. Sua produção é impactante, visceral e detalhista.

Ao longo dos últimos vinte anos, trabalhando juntos em álbuns como Temporais, Fênix e Castelos de Areia, além de diversos singles, aprendi com ele muito do que sei sobre produção musical.

Essa convivência foi essencial para ampliar minha compreensão sobre produção musical e desenvolver uma linguagem própria, tanto nos arranjos quanto na construção das atmosferas sonoras que busco nas minhas músicas.
OUTRA VIDA
Produzido por Bruno Bona

Sei Que Posso Voar — Making-of de uma gravação inédita
Mas minha busca por uma linguagem própria não se limitava à música.
A fotografia também passou a fazer parte desse processo. Sempre me interessaram as imagens que sugerem mais do que revelam, que transformam o cotidiano em algo estranho, poético ou misterioso.
Alessandra Levtchenko é fotógrafa, dona de um olhar único, capaz de revelar o lado onírico das realidades que retrata.

Conheci Alessandra nos anos 90, pouco depois do meu retorno da Berklee. Ela não se deixava seduzir pelo apelo da fotografia comercial. Sua maneira não convencional de fazer poesia com imagens me encantou logo de cara, e assim iniciamos uma longa parceria.

Ao longo de muitos anos, ela me fotografou, elevando minha arte com sua inventividade e ousadia artística.

Seus primeiros trabalhos comigo foram todos ainda em filme analógico, com aquele aspecto quente da imagem, ainda granulada.

Sempre gostei de acompanhar o processo de criação de Alessandra. Entre diferentes enquadramentos, expressões e experimentações, cada sessão revelava possibilidades que muitas vezes não estavam previstas no início.

Alessandra nunca se limitou a registrar o que estava diante da câmera. Para ela, a fotografia não terminava no instante do clique. Era também matéria para novas experiências e interpretações.

Depois da minha experiência com a fotografia still, comecei a sentir necessidade de traduzir minhas músicas em videoclipes. Mas o mercado me parecia saturado de produções com um apelo estritamente comercial, que pouco me seduziam.
Eu buscava algo mais metafórico, uma maneira de contar as histórias das minhas letras através de filmes que tivessem uma linguagem mais poética.

Foi nessa época que conheci Giuliano Saade, por volta do ano 2000. Nossa amizade acabou dando origem a uma parceria artística que transformaria as histórias das minhas músicas em filmes.

Giuliano é um grande diretor de cinema, com uma sensibilidade e um olhar apurado para captar as verdades que habitam cada universo que retrata.

Juntos, desenvolvemos ideias e conceitos visuais para os videoclipes de Sete e Meia, Julie e Pobre Coração, que Giuliano dirigiu e produziu.

Mais do que uma parceria artística, ficou uma grande amizade que permanece até hoje.
Dessa parceria nasceram três filmes que deram às minhas músicas uma dimensão visual própria. Cada um deles traduz, à sua maneira, um pouco do universo que imaginávamos ao construir essas histórias.
SETE E MEIA
Dirigido por Giuliano Saade
JULIE
Dirigido por Giuliano Saade
POBRE CORAÇÃO
Dirigido por Giuliano Saade
Foi nesse período que conheci Sérgio Miranda, o Serjada, quando tive meu primeiro e único contato com uma gravadora, o selo independente Number One Music. Depois dessa experiência, seguiria minha trajetória como artista independente até os dias de hoje.

Sérgio cuidou da minha carreira como quem cuida de um filho. Deu o sangue comigo e, juntos, fizemos um trabalho minucioso de divulgação pelo Brasil.

Foi um período de intensa atividade, em que minha música Sete e Meia teve grande execução nas rádios, enquanto seu videoclipe foi veiculado na MTV e no Multishow, no programa TVZ.




Naquela época, percorremos diferentes cidades, entre entrevistas, programas de televisão, rádios e apresentações. Foram muitas viagens, encontros e histórias que o tempo transformou em lembranças especiais que guardo comigo.

SETE E MEIA
Programa Raul Gil
ESTRANHO CUPIDO
Programa Raul Gil
Guardo dessa época a lembrança de alguém que acreditou profundamente no meu trabalho e não mediu esforços para fazê-lo chegar mais longe. Sérgio segue sendo um amigo querido até hoje.
Com o passar do tempo, comecei a sentir vontade de explorar outros caminhos na composição das minhas letras. Sentia que precisava de alguém que tivesse a habilidade de narrar imagens diferentes daquelas com as quais eu já havia me acostumado.
Comecei então uma busca online por poemas de autores independentes. Foi assim que encontrei Ariel Iraneg, uma letrista muito hábil com metáforas e imagens que achei poderosas e elegantes.
Escrevemos algumas letras juntos, entre elas Céu,Vagabundos Tolos e Reis e Outra Vida, que permanece, até hoje, a minha favorita entre todas as nossas composições.

Conheci Jay Vaquer por volta do ano 2000, quando começou uma amizade que permanece até hoje.

Em 2011, Jay me convidou para participar de uma apresentação sua no Tom Jazz, em São Paulo. Naquela noite, dividimos o palco para interpretar duas músicas em dueto: Temporais, de minha autoria, e Alguém em Seu Lugar, composição dele.

Foi uma oportunidade especial de levar para o palco uma história que já vinha de muitos anos.
Temporais — brenner bianco
Alguém em Seu Lugar — Jay Vaquer
Conheci Jorge Durian em 2012, quando ele me convidou para participar de um concerto em homenagem a Luciano Pavarotti, no Theatro Municipal de São Paulo, realizado em 20/06/2012.

Na ocasião, fizemos um dueto vocal de Miss Sarajevo, do U2, com um arranjo que criava um contraponto interessante entre o canto lírico e o som da guitarra distorcida do solo.

A proposta era explorar justamente esse encontro entre duas linguagens musicais aparentemente distantes. De um lado, a expressividade e a dramaticidade da voz lírica. Do outro, a intensidade da guitarra elétrica e uma interpretação mais próxima do rock.

Além de cantar em inglês, escrevi alguns versos em português especialmente para aquela apresentação, enquanto Jorge interpretava trechos da música em inglês e italiano.
Foi interessante perceber como essas diferentes formas de expressão podiam coexistir dentro da mesma composição, sem que uma precisasse abrir mão de sua identidade.

Guardo boas lembranças daquela noite, não apenas pela oportunidade de me apresentar no Theatro Municipal, mas também pela experiência de dividir o palco com Jorge e uma orquestra, explorando uma combinação musical tão diferente daquela com a qual eu estava acostumado.
Miss Sarajevo — Jorge Durian e brenner bianco
Hoje sigo compondo, produzindo, tocando e fazendo os arranjos das minhas músicas.
Meu processo criativo varia. Às vezes, a inspiração vem de uma frase, de um fragmento de letra. Outras vezes, uma melodia nasce de uma progressão harmônica, e a letra vai sendo construída sobre a métrica dessa melodia.
Um riff de guitarra também pode servir de esqueleto para uma música, e todo o arranjo vai sendo construído ao seu redor.
Gosto de músicas que evocam imagens, despertam sensações de nostalgia e mistério e parecem nos transportar para algum lugar. Quando componho, não penso apenas na melodia ou na harmonia. Penso também no ambiente que aquela música cria e na sensação que permanece depois que ela termina.
As letras frequentemente me sugerem imagens e cenas. A partir delas, começo a imaginar os arranjos, os instrumentos e as texturas que podem fazer parte da música. Procuro encontrar uma combinação de sons que traduza aquela atmosfera. Talvez venha daí a dramaticidade que acaba aparecendo nas minhas composições.
CRIANDO